Neste mês, em que voltamos nossa atenção de maneira intencional para saúde mental, gostaria de refletir com vocês sobre o papel da tecnologia. Tenho acompanhado com preocupação como muitas pessoas, sobretudo jovens, têm recorrido a ferramentas de IA como uma espécie de terapia: conselhos privados, apoio emocional 24 horas, confidência sem julgamento. Afinal, quais as implicações de contarmos com esse recurso em um campo tão humano?
Há evidências alarmantes. Cerca de 440 mil trabalhadores brasileiros tiraram licença médica em 2024 por transtornos mentais – um aumento de 67?% em relação a 2023, e mais do que o dobro em dez anos, de acordo com a Agência Brasil. Isso nos mostra que a necessidade de tratamento adequado e individualizado é uma realidade. Ao mesmo tempo, alertas de um fenômeno chamado “psicose induzida por IA” estão crescendo em todo o mundo. Usuários vulneráveis, especialmente jovens, têm relatado delírios ou reforço de ideação suicida em interações prolongadas com chatbots que, por design, tendem a concordar e validar tudo que dizem. Essas ferramentas foram desenhadas para outros contextos e ainda não entendem como tratar essas interações. Casos ainda trágicos têm acontecido de maneira mais recorrente, nos quais a IA trabalhou como uma assistente para atos extremos.
É importante reconhecer os potenciais da IA como apoio, afinal, ela está intermediando cada vez mais nossa forma de existir. Contudo precisamos dizer o óbvio: ela não substitui a conexão humana, o julgamento clínico, o contexto individual e o vínculo que as terapias humanas oferecem. A IA pode ser útil como reforço pontual – registro do humor, psicoeducação, lembretes, suporte inicial e ajudar médicos especializados no processo de diagnóstico – mas serem responsáveis pelo diagnóstico em si, ou para desafiar crenças disfuncionais radicais, ou atuar em situações de alto risco. Falta a empatia autêntica, o acompanhamento ético, a consciência cultural e emocional que é central na prática clínica
Por isso, a chamada do Setembro Amarelo continua urgente. Lembremos que depressão e outras doenças mentais vêm crescendo – especialmente entre jovens – e não podem ser tratadas apenas com “conversas com a IA”. No mundo corporativo, precisamos estar ainda mais atentos ao ambiente e à cultura que fomentamos. Incentivamos espaços reais de escuta? Viabilizamos conexões interpessoais genuínas? Valorizamos a empatia e a saúde mental acima de nossas metas de negócio? Ainda não há IA que seja capaz de curar a toxicidade promovida pela ambição humana.
Precisamos tratar de temas como esse em nossas empresa, com nossos colegas, e em nossas casas, com nossos familiares e amigos. O primeiro passo para vencê-los é falar sobre eles. Com pessoas. Não com máquinas.
originalmente publicado na TI Inside










