Você tem a síndrome do super-homem?

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por Fabrício Oliveira, CEO da Vockan

Incansável, sempre de prontidão e sabedor de todas as respostas. Você é esse tipo de liderança? Há um mito de que líderes precisam ser exemplos, e exemplos são sinônimo de perfeição, por isso, não erram e não possuem vulnerabilidades. Bom, se até o Superman tinha seu ponto fraco, imagine a gente, não é mesmo? 

Estar à frente de tantas pessoas, de tantas operações, nos coloca em um lugar de poder com o qual nos acostumamos. Somos ouvidos, consultados, tomamos decisões sem pestanejar. Porém, tenho refletido com mais frequência sobre quais são meus limites e qual o meu impacto no mundo ao meu redor por um daqueles desafios que a vida nos apresenta sem fazer cerimônias. 

Há três anos, em um exame de rotina, fazendo um check-up, descobri uma condição que merecia acompanhamento. O cenário evoluiu para uma intervenção cirúrgica relevante, controlada, mas que poderia ter mil desdobramentos que me fizeram pensar profundamente sobre diversos aspectos da nossa existência, inclusive sobre a finitude. 

No dia a dia, sabemos que a vida tem fim, mas não pensamos sobre essa inevitabilidade. Quando colocado nesse lugar, tive que equilibrar o desejo de viver e as decisões práticas que precisavam ser tomadas. Precisei ter conversas difíceis, delicadas e cheias de significado com familiares, amigos e colegas de trabalho. Tive que pensar objetivamente nas minhas vontades acerca de questões corriqueiras para produzir um documento que registrasse meus desejos. Qual meu plano de sucessão para a empresa? O que quero que seja feito com minhas coisas? 

No mundo corporativo, estamos acostumados a trabalhar com cenários, não é? Um mais otimista, um mediano e um deles um pouco mais pessimista. Porém, em geral, mesmo na pior hipótese, a empresa segue de pé, talvez com menos prosperidade ou lidando com alguma crise, mas operando. Aqui, foi diferente. E não dá para passar por uma experiência como essa, ter uma segunda chance e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Não dá. 

A gente se ressignifica, re-prioriza, revalida intenções e desejos. Coisas que eram grandes, simplesmente, somem. Pequenos gestos se agigantam e passam a ser o motivo para querermos seguir em frente. As dificuldades de agenda, o pneu que furou, o elevador que está demorando. Calma. Isso não importa. O café cheiroso que a dona Ana faz, o bombom que minha filha escondeu na minha mochila, minha mãe ter vindo de outro estado para ficar comigo. Isso, sim, importa. 

Mesmo sendo um líder muito presente e aberto, faz tempo que desenvolvo com meus times competências ligadas à autonomia. Em todos os níveis, procuro estimular a auto responsabilização, análise crítica de cenários e o engajamento direto. Isso foi crucial nesse momento. Eles sempre reagiram bem a esses estímulos, mas, como dizem por aí “treino é treino, jogo é jogo”. Eles não teriam mais a segurança de validar posições comigo antes de dar a palavra final. E eles ganharam de lavada. 

Nesse sentido, foi um sucesso. Além de ter dado tudo certo, alguns dos processos dos quais efetivamente me afastei, não vou retomar. Mesmo tendo voltado para o jogo, agora, eles assumiram parte do ritmo. Se antes eu cantava a jogada, agora eu aplaudo e posso realocar meus esforços em questões que realmente exigem o olhar do CEO. 

No fim, eu tive muita sorte. Desde ter achado o problema e ter tido os recursos das mais diversas naturezas para solucioná-lo, passando pela competência da equipe médica, até o suporte incansável da minha família, amigos, time da Vockan e parceiros de trabalho que cruzaram essa jornada comigo.

Este é um artigo diferente, você já percebeu. Ele não é sobre ser um líder A ou B. É sobre a profundidade – e a delicadeza – da nossa humanidade. Super-homem sempre soube que não sou. Num ritmo menos frenético, sigo confiante, cantando como um mantra, os versos de Marisa Monte: sou feliz, alegre e forte. Tenho amor e sorte aonde quer que eu vá. E é só isso que importa. 

originalmente publicado na TI Inside

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